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“O tempo existe, sim, e devora”
(O dia que Júpiter encontrou Saturno)
“A escolha é nossa. E isso é o ‘Karma’ !”
(Saturno, o senhor do Karma)
Quem acredita, pode fazer mel sem partilhar o destino das abelhas?
(A elegância do ouriço)
“Every passing minute is another chance to turn it all around”
(Sofia)
“Feche a porta.”
(El secreto de sus ojos)
Fechei.
(Eu)
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se escreveu, remeta
engrossou, se meta
quer dever, prometa
pra moldar, derreta
não se submeta
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Você…
Querer eu quero, mas não em desespero. Eu quero, assim, para saber se gosto ou não.
Posso?
"A dream itself is but a shadow" W.S.
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De tempos em tempos as chuvas de verão me traziam companhia, mas há muito não lhe fazia notar, por displicência ou mesmo por escolha própria – não me decido agora – o provável é que tenha me deixado tomar pelo vazio da escuridão (resistia pouco às forças externas até esse momento) que é próprio dessas águas, ao menos aonde moro. Então você apareceu, está aqui na minha frente, tenho à vista sua silhueta, é isso o que me permitem as velas acesas no cinzeiro onde há pouco fumava meu cigarro – o mais fraco persevera o tórrido calor – são três, as velas, queria que fossem mais para lhe ver por todo, daqui só tenho o contorno, mas sei que há mudanças. – Você engordou? – Cortou os cabelos? Não houve resposta. Talvez tenha sido indelicada; talvez eu que tenha mudado. Não consigo parar de olhá-la…não sei se faz o mesmo. Por que eu não comprei mais velas?! Não sabia que viria, mesmo assim deveria ter comprado, ido ao mercado, à venda da esquina… a escuridão sempre vem. Quero enxergar para além do plano, não posso ficar sentada aqui, as velas queimam, é noite de verão, o calor se acentua, estou curiosa…será que mudou mesmo? Deveria me levantar…uma das velas está prestes a sucumbir mergulhada às outras, o cinzeiro está imerso, elas começam a fugir pela borda onde antes o cigarro repousava a cada tragada, agora gotejam o criado-mudo lentamente como quisessem se materializar do lado de fora…já imagino uma nova surgindo do monte de gotas secas que se forma. O gotejar cessa, pela borda começam a correr, o monte se desfaz, desistiu de materializar-se, desistiu de qualquer forma. Não entendo…É outra prestes a sucumbir, na verdade, já o fez, é chama, e em pouco deixará de ser…e serão duas. É bonito; a vela derretida como água e o fogo – quem lhe causou – há ponto de se abismar. Preciso levantar. A primeira sucumbiu, agora corre, escorre pelas gavetas do criado-mudo em tão branca linha; a segunda fará o mesmo e acentuará o contraste de cores, as delas e a do criado-mudo, como em contraposição. Levanto-me; como previsto, porém antes do esperado, a segunda já não é chama e segue seu destino…te vejo menos agora que a penumbra fraqueja, preciso me aproximar. Aproximo. Você se distancia,…olho o cinzeiro em água e fogo, precipito mais um passo. - Por que recua? Não houve resposta. Talvez tenha sido indelicada novamente; tanto tempo displicente. – Não vá embora! Já não há tempo, a escuridão me toma. Deveria ter comprado mais velas, ido ao mercado, à venda da esquina… a escuridão sempre vem. Não sabia que viria.
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Então, primeiro, calo-me, mas não sei por quanto tempo. Um minuto, um segundo, um dia, um ano. Talvez o tempo exato do talvez que me alucina. E como há muitos modos de dizer o nada, e as duas gavetas e o sorrateiro abismo de olhos para o nada, existem os vários mundos e os modos de dizê-los, mas o que interessa aqui são os modos de não dizer e desdizer. Para amenizar a imaginação até que fique morta, pois tem me causado muita dor de cabeça. Direi para qualquer efeito de apenas dois dos mundos o que se diz e o que se desdiz, a opção pela facilidade é sempre a mais sábia. E prestarei atenção em mim, antes do inventário dos feitos. Talvez em pouco tempo eu mude de idéia, pois a classificação tem um início, mas jamais tem limite.
[Magnólia - Tiburi, M.]
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Em ensolarado sábado matinal saíram, juntos, pai e filho.
Simbiose seria a expressão exata para definir a cena, se se quisesse resumi-la, ou mesmo se a ela se dedicassem 2 segundos do olhar, pois, de tão semelhantes que eram, os dois, pareciam o mesmo, distanciados por uma dupla de décadas e alguns poucos anos a mais. Admiração seria outra exatidão, a admiração do outro, já que eu, por exemplo, duvidaria fazer uso dela caso fosse o pai, creio que a tomaria como algo mais perturbador do que contemplativo – a semelhança, digo.
Mas, enfim, assim eram, iguais na aparência, no andar e na intenção; caminhavam de chinelos e óculos de mergulho nas mãos, cada qual com o seu. Ansiando a chegada, o filho antecipava os acontecimentos porvir enquanto o pai endossava cada uma de suas expectativas; a essa altura nenhuma dupla de décadas ou um ano sequer os separavam.
Poucos metros de areia a frente, o futuro passado se tornara presente e os dois atracaram em suas intenções, perpassaram os óculos pelas cabeças, posicionando-os na fronte. O pai, tentando demonstrar não ser marinheiro de primeira viagem, começara a entoar seus ensinamentos, mas, como era, o fez de forma tanto quando atrapalhada. Primeiro, sobre a respiração, disse:
- Você deve respirar. Nao…, quer dizer, inspirar! Prende o ar e só solta lá embaixo, depois de mergulhar.
A atenção desprendida aos gestos do pai foi tamanha que do filho exalaram ares de compreensão, contudo, mergulhar era um verbo conjugado somente até o pescoço, ele ainda não conseguia colocar a cabeça embaixo d’água, algo travava a ação. Então o pai seguiu para seu segundo ensinamento – o medo. Com docilidade, tentou lhe transmitir segurança, dizendo:
- Não precisa ter medo, papai tá aqui, você não vai se afogar. Tá bom?!
Em silêncio, o menino encheu seu pulmão de ímpeto, encarou a água como se quisesse perfurar seu fundo, no mesmo segundo ou talvez na mesma fração de segundos que alguém chama pelo pai. No momento em que este se vira para atender ao chamado de quem parecia ser um velho amigo há muito não visto, o filho, concentrado como se também atendesse a outro chamado, dá um passo a frente – mergulha.
O barulho de água dispersada pela batida desordenada de braços fez o pai virar-se novamente, era o menino em sua tentativa mal sucedida de mergulho seguida de breve afogamento. Com as mãos ele o levantou…tossia, pois havia engolido muita água, tinha espanto no rosto e se dividia entre o choro e um apelo conclamativo, tentou a todo custo, até que conseguiu dissipar a simbiose e devolver ao pai suas duas décadas e alguns pouco anos a mais, talvez muitos mais. Seu grito causava pena aos que assistiam, constrangimento a quem lhe acudia, e dizia, tirando tudo do lugar:
- Mamãe, Socorro! Mamãe!!
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desde que saí de casa, trouxe a viagem de volta gravada na minha mão, enterrada no umbigo, dentro e fora assim comigo, minha própria condução.
[Torquato Neto]
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