“O amor é uma troca entre duas correntes de energias, dois pólos opostos mas complementares. Não é o corpo físico que inspira o amor, muitas vezes ele só intervém no fim do processo como um culminar, só vem na sequência. O que inspira o amor é algo invisível. Em geral, dá-se mais importância ao corpo do que aquela que ele possui realmente. Mas colocados lado a lado, os cadáveres de dois seres que se amaram, abraçam-se? Não, mas as suas almas, que são vivas, continuam a relacionar-se. É a vida nas criaturas que provoca atracção ou repulsa. Portanto, antes de os corpos serem atraídos um para o outro, houve correntes fluídicas que os levaram a aproximar-se; os corpos apenas seguiram o movimento, bem no fim deste processo.”
O. Mikhaël Aïvanhov
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- Por que você se afastou?
- Sinto um incômodo nas costas, da posição, creio.
- Não. Você se afastou porque eu estava te olhando.
- Juro que sinto dores, estava ficando dormente e…eu tenho um problema no joelho esquerdo também que…
-Tenho certeza que não te envergonhei, muito menos lhe fiz ofensa, conheço você o suficiente para saber isso…Eu bem acho graça do modo como se divide nesses momentos, sua boca oscila em mentiras que brotam de forma compulsiva, porém calculada, a ponto de ignorar quaisquer interjeições – é fácil escapar de perguntas as quais não se quer responder quando se fala demais-, seus olhos se fixam nalgum ponto visível somente a eles, seu corpo…seu corpo se encobore num casulo. Acho graça, mas não queria exercer esse poder. Poder?! Maldição. Não me tome por presunçoso, é o que consigo ler… Por que se torna tão evasiva?
- Por medo, eu acho.
- Medo de quê?
- Do perigo. É o que eu consigo ler…e não é nada que tenha feito ou falado, é só assim, e sempre foi desde o primeiro momento.
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“tudo estava resolvido desde a primeira carta, tudo combinado, e a última formalidade fora cumprida durante o jantar, onde quer que tenham ido, falar um pouco sem prestar atenção e com impaciência, simular esmero numa conversa, numa anedota, observar a boca, servir o vinho, ser educado, acender cigarros, rir, o riso é às vezes o prelúdio do beijo e a expressão do desejo, sua transmissão, sem que se saiba por quê, o riso desaparece depois durante o beijo e a consumação, quase nunca há risos enquanto as pessoas se abraçam despertas no travesseiro e as bocas já não se observam ( a boca está cheia e é a abundância), tende-se à seriedade por mais risonhos que sejam os prolegômenos e as interrupções, a demora, a espera, a prolongação e as pausas, um respiro, o riso se corta, às vezes também as vozes, calam-se as vozes articuladas, ou falam com vocativos ou interjetivamente, não há nada a traduzir.”
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noite severina
corre calma severina noite
de leve no lençol que te tateia a pele fina
pedras sonhando pó na mina
pedras sonhando com britadeiras
cada ser tem sonhos a sua maneira
corre alta severina noite
no ronco da cidade uma janela assim acesa
eu respiro seu desejo
chama no pavio da lamparina
sombra no lençol que tateia a pele fina
ali tão sempre perto e não me vendo
ali sinto tua alma flutuar do corpo
teus olhos se movendo sem se abrir
ali tão certo e justo e só te sendo
absinto-me de ti, mas sempre vivo
meus olhos te movendo sem te abrir
corre solta suassuna noite
tocaia de animal que acompanha sua presa
escravo da sua beleza
daqui a pouco o dia vai querer raiar
Lula Queiroga / Pedro Luís
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descrição popular dos signos
áries – fresco
touro – ser de natureza cega – corno
gêmeos – ser de natureza falsa, um duas caras
câncer - doente, pobre coitado da mamãe
leão – o rei do pedaço
virgem – a frigidez personificada
libra – não sabia que existia esse signo
escorpião – cruzes, venenoso
sagitário – cavaleiro de ouro; hábil lutador, excelente personalidade, humildade, possui grande senso de justiça. Nasce no Episódio G e nele mesmo é morto por Shura de capricórnio.
capricórnio - um bode, dispensa maiores comentários
aquário - conservador e possessivo
peixes – insone, cujo ponto fraco é a boca – a dele ou a do outro
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essa noite reencontrei
em marcas e linhas
junto às palavras antigas
lidas
relidas
versos passados
de rendição, reconhecimento e dúvida
neles não arriscara respostas
só umas notas, um bilhete
e algumas manchas
mas a presença aos meus ouvidos
hoje
não soou apelativo
como faz
e fez
a canção preferida
vá embora! era o que dizia
imperativo
em verdade
não é do reencontro o desagrado
por mais inesperado
muito menos se faz motivo
a marca
o bilhete
ou as manchas
em verdade
é da ausência o embaraço
da brancura do coração
quando deveria ter sido pulsação
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Diadorim queria sangues fora de veias. E eu não concordava com nenhuma tristeza. Só remontei um pasmo e um consolo expedito; porque a guerra era o constante mexer do sertão, e como com o vento da seca é que as árvores se entortam mais. Mas, pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira d’água, esperando que o riacho, alguma hora, pousoso, esbarre de correr.
[...]
Diadorim vinha constante comigo. Que viesse sentido, soturno? Não era, não, isso eu é que estava crendo, e quase dois dias enganoso cri. Depois, somente, entendi que o emburro era mesmo meu. Saudade de amizade. Diadorim caminhava correto, com aquele passo curto, que o dele era, e que a brio pelejava por espertar. Assumi que ele estava cansado, sofrido também. Aí mesmo assim, escasso no sorrir, ele não me negava estima, nem o valor de seus olhos. Por um sentir: às vezes eu tinha a cisma de que, só de calcar o pé em terra, alguma coisa nele doesse. Mas essa idéia que me dava era do carinho meu. Tanto que me vinha a vontade, se pudesse, nessa caminhada, eu carregava Diadorim, livre de tudo, nas minhas costas. Até o que me alegrava era uma fantasia, assim como se ele, por não sei que modo, percebesse meus cuidados, e no próprio sentir estivesse me agradecendo. O que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração. Continuando, feito um bem, que sutil e nem me perturbava, porque a gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer, com esquivança de qualquer pensar, do que a consciência escuta e se espanta; e também em razão de que a gente mesmo deixava de escogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto, com seu poder e seus segredos; assim é que hoje eu penso. Mas, então, num determinado, eu disse:
— “Diadorim, um mimo eu tenho, para você destinado, e de que nunca fiz menção…” — o qual era a pedra de safira, que do Arassuaí eu tinha trazido, e que à espera de uma ocasião sensata eu vinha com cautela guardando, enrolada numa pouca de algodão, dentro dum saquitel igual ao de um breve, costurado no forro da bolsa menorzinha da minha mochila.
De desde que falei, Diadorim quis muito saber o presente qual era, assim apertando comigo com perguntas, que sem aperreio deixei de responder, até de tarde, quando fizemos estância. a parança que foi — conforme estou vivo lembrado — numa vereda sem nome nem fama, corguinho deitado demais, de água muito simplificada. Aí, quando ninguém não viu, eu saquei a mochila, desfiz a ponta de faca as costuras, e entreguei a ele o mimo, com estilo de silêncio para palavras.
Diadorim entrefez o pra-trás de uma boa surpresa, e sem querer parou aberto com os lábios da boca, enquanto que os olhos e olhos remiravam a pedra-de-safira no covo de suas mãos. Ao que, se sofreou no bridado, se transteve sério, apertou os beiços; e, sem razão sensível nem mais, tornou a me dar a pedrinha, só dizendo:
— “Deste coração te agradeço, Riobaldo, mas não acho de aceitar um presente assim, agora. Aí guarda, outra vez, por um tempo. Até em quando se tenha terminado de cumprir a vingança por Joca Ramiro. Nesse dia, então, eu recebo…”
Isso, de arrevés, eu li com hagá; e mesmo antes, quando apontou no rosto dele, para o avermelhar de cor, a palidez de espécie. Delongando, ainda restei com a pedra-de-safira na mão, aquilo dado-e-tomado. Donde declarei:
— “Escuta, Diadorim: vamos embora da jagunçagem, que já é o depois-de-véspera, que os vivos também têm de viver por só si, e vingança não é promessa a Deus, nem sermão de sacramento. Não chegam os nossos que morremos, e os judas que matamos, para documento do fim de Joca Ramiro?!
Guimarães Rosa
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