De tempos em tempos as chuvas de verão me traziam companhia, mas há muito não lhe fazia notar, por displicência ou mesmo por escolha própria – não me decido agora – o provável é que tenha me deixado tomar pelo vazio da escuridão (resistia pouco às forças externas até esse momento) que é próprio dessas águas, ao menos aonde moro. Então você apareceu, está aqui na minha frente, tenho à vista sua silhueta, é isso o que me permitem as velas acesas no cinzeiro onde há pouco fumava meu cigarro – o mais fraco persevera o tórrido calor – são três, as velas, queria que fossem mais para lhe ver por todo, daqui só tenho o contorno, mas sei que há mudanças. – Você engordou? – Cortou os cabelos? Não houve resposta. Talvez tenha sido indelicada; talvez eu que tenha mudado. Não consigo parar de olhá-la…não sei se faz o mesmo. Por que eu não comprei mais velas?! Não sabia que viria, mesmo assim deveria ter comprado, ido ao mercado, à venda da esquina… a escuridão sempre vem. Quero enxergar para além do plano, não posso ficar sentada aqui, as velas queimam, é noite de verão, o calor se acentua, estou curiosa…será que mudou mesmo? Deveria me levantar…uma das velas está prestes a sucumbir mergulhada às outras, o cinzeiro está imerso, elas começam a fugir pela borda onde antes o cigarro repousava a cada tragada, agora gotejam o criado-mudo lentamente como quisessem se materializar do lado de fora…já imagino uma nova surgindo do monte de gotas secas que se forma. O gotejar cessa, pela borda começam a correr, o monte se desfaz, desistiu de materializar-se, desistiu de qualquer forma. Não entendo…É outra prestes a sucumbir, na verdade, já o fez, é chama, e em pouco deixará de ser…e serão duas. É bonito; a vela derretida como água e o fogo – quem lhe causou – há ponto de se abismar. Preciso levantar. A primeira sucumbiu, agora corre, escorre pelas gavetas do criado-mudo em tão branca linha; a segunda fará o mesmo e acentuará o contraste de cores, as delas e a do criado-mudo, como em contraposição. Levanto-me; como previsto, porém antes do esperado, a segunda já não é chama e segue seu destino…te vejo menos agora que a penumbra fraqueja, preciso me aproximar. Aproximo. Você se distancia,…olho o cinzeiro em água e fogo, precipito mais um passo. - Por que recua? Não houve resposta. Talvez tenha sido indelicada novamente; tanto tempo displicente. – Não vá embora! Já não há tempo, a escuridão me toma. Deveria ter comprado mais velas, ido ao mercado, à venda da esquina… a escuridão sempre vem. Não sabia que viria.
« numb